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do quarto para o blog

do quarto para o blog

27
Set22

Pequenas marés de mar

francisco luís fontinha

O frio gélido do Inverno entranhava-se nos ossos famintos que tínhamos transportado de além-mar, as escadas, graníticas e autênticas, durante a noite, vestiam-se de uma fina película de gelo e pela manhã, quando queríamos sair do cubículo, dançávamos como se fossemos bailarinos duma qualquer companhia de bailado em digressão pela província.

Ele, chorava.

As janelas, com vista directa para o chafariz, embrulhavam-se no vento, os farrapos a que a minha mãe apelidava de cortinados, voavam e, em pequenos círculos, como se as tempestades percebessem de geometria, quase que desciam ao rés-do-chão e acabavam por se deitar no pavimento constipado em frente à farmácia; nunca entendi o que pensavam os cortinados, nunca entendi porque estavam tristes os cortinados do nosso cubículo, apenas sabia que as janelas tinham mais aberturas do que vidros.

Ela, chorava.

No final da tarde, sentado na velha varanda que ainda hoje existe e de boa saúde, contentava-me em contar o número de carros que rua acima, rua abaixo, passeavam em pequenas sombras e tirando a rouquidão de um ou de outro, o silêncio era absoluto.

Comecei a inventar sonhos.

Comecei a inventar sonhos e pequenas marés de mar.

Nós, chorávamos.

Mas eramos muito felizes… e foi nessa altura que comi o melhor peixe do rio assado no forno até hoje, na tasca junto á fonte da Gricha.

E se eu pudesse, voava…

Voava como voam os pássaros dos sonhos.

 

 

 

 

Alijó, 27/09/2022

Francisco Luís Fontinha

27
Set22

Flor proibida

francisco luís fontinha

Pergunto a este livro que me observa como se eu fosse uma abelha poisada na flor proibida, o que é o amor. E à fotografia onde habitam os meus pais, questiono-a se sabe o que é a paixão…

E tanto aquele livro, e tanto aquela fotografia, nada sabem sobre o amor e sobre a paixão.

Talvez se lhes perguntasse o que são as misérias do ser humano, ele e ela me respondesse…

Porque choram as acácias, pai?

Talvez me respondessem que já nascemos miseráveis, e como miseráveis que nascemos, nunca poderemos amar, nem tão pouco respirar a neblina da manhã. E enquanto esperava pela resposta do meu pai, nasci; nasci num Janeiro recheado de sol e de muito calor, sem que ainda hoje perceba porque choram as acácias.

Como também não percebo porque choram os pássaros, porque choram as árvores, porque chora o mar e o luar, porque choram as crianças, quando estas, deveriam pincelar sorrisos em cada manhã.

Depois, abri os olhos e vi no tecto da maternidade o mar; tinha sido a minha mãe que trouxe um pedacinho do Mussulo porque já suspeitava que eu

Talvez amanhã acorde.

Que eu pertencia a uma espécie de algas e que um dia seria apenas húmus e passaria o tempo a semear palavras nas planícies do sonho.

Ora, como sonhar é proibido por decreto Real e as palavras são apenas palavras, sombras, rectas paralelas que dizem que só se encontram no infinito, posso afirmar que sou apenas um poema que ninguém lê, mais um poema em direcção ao abismo.

E depois de abrir os olhos, de ver o mar aprisionado no tecto da maternidade, pequei na mão da minha mãe e levei-a a ver o capim que nunca ninguém percebeu de onde vinha aquele cheiro inconfundível depois das chuvas; que saudades…

Das acácias?

Daquele livro que me observa, daquela fotografia que me olha, e atrevo-me a dizer que são as únicas coisas que me observam; como aquele lindíssimo olhar que me seguia enquanto eu passava transportando uns calções coloridos e as sandálias de couro que ainda hoje sonham com o cacimbo pela manhã.

Porque choram as acácias, pai?

Pergunto a este livro que me observa como se eu fosse uma abelha poisada na flor proibida, o que é o amor. E à fotografia onde habitam os meus pais, questiono-a se sabe o que é a paixão…

E deparo-me que este livro é apenas um livro, e que esta fotografia não tira os olhos de mim, desde que nasci num Janeiro recheado e sol e de muito calor.

Que lindo, mãe…

Que lindo é o mar!

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 27/09/2022

26
Set22

Dos livros estes livros

francisco luís fontinha

Deixou cair as asas sobre o mar e adormeceu; no dia seguinte deu-se conta que todas as fotografias que tinha escondido dentro da pequena caixa de sapatos número trinta, rés-do-chão esquerdo, tinham desaparecido como anteriormente já tinham desaparecido dois livros de poesia de AL Berto, um livro do Pacheco e um outro de Lobo Antunes.

Com os livros de poesia de AL Berto, muitos anos antes de perder as asas, teve uma enorme discussão, pois estes quase sempre não gostavam de ser manuseados, folheados, quanto ao livro do Pacheco, esse, estava sempre com dor de cabeça.

O dia erguia-se entre os seios dela, da rua, regressavam aos poucos as loucas buzinas dos transeuntes em delírio, como regressam ao final da tarde os estorninhos parecendo uma orquestra de zumbis, mas quanto aos dois livros de poesia de AL Berto, hoje, e enquanto os folheava e manuseava, não se queixaram de tal, até que o livro do Lobo Antunes me questionou a razão do par de asas estar sentado sobre eles, quando poderiam muito bem estar na minúscula sala de jantar; e porque não suporto birras nocturnas, puxei de um cigarro e fui ver o maldito mar daquela última noite.

O mar estava chocho, a maré tinha acabado de deixar o quarto e nele deixou impregnado o invisível perfume que apenas as marés usam, junto à janela havia uma secretária onde dormiam pedaços de papel escritos no século passado e que ele já nem se recordava; que conste que tratava-se apenas de algumas cartas que nunca foram enviadas, portanto sem remetente, e duas ou três receitas de culinária que nunca se atreveu a experimentar.

O mar estava enjoado. Nos lençóis, uma pequena mancha de esperma, desenhava a manhã que mais tarde acordaria e ninguém saberia se ia terminar. Numa das paredes, pequenas frestas olhavam-no, e começou a acreditar que estava a ser observado pelo defeituoso silêncio que muitas vezes se alicerçava sobre o peito e, quase sempre não entendia a razão.

Sabia que um dia seria apelidado de anjo azul, de azul tinha o pulso pincelado, mas de anjo, de anjo nada tinha, apenas as asas que deixara cair sobre o mar.

Sabíamos que a noite trazia sempre uma pequena malga de sopa, uma sandes de nada e dois ou três cigarros, depois, acreditando que sabia voar, colocou as asas e lançou-se da clarabóia…

Estatelou-se no pavimento como se fosse um pássaro que acabasse de sofrer um AVC, até que do mar, em passo apressado, vieram em seu auxílio as fotografias que tinham desaparecido da pequena caixa de sapatos; ouviam-se os lobos que aos poucos se despediam da maré, e esta, partiu.

Ele, depois de acordar, abraçou-se aos pequenos lençóis e ainda hoje inventa o sono antes de regressar a noite às suas mãos.

 

 

Alijó, 26/09/2022

Francisco Luís Fontinha

15
Set22

O que pensas da paixão, em dias de chuva, minha querida?

francisco luís fontinha

Descem sobre mim as lágrimas do Céu; percebo que transporto no olhar o pequeno silêncio da manhã e sempre que me descuido, um pedacinho de tristeza se alicerça ao meu peito. E as palavras parecem balas disparadas pela espingarda do desejo.

O que tem paixão em comum com as lágrimas do Céu, meu querido?

Talvez tudo. Talvez nada. Sabias que dentro da paixão existe uma equação sem resolução?

Não. Não sabia, meu querido.

E que a paixão tem vida, tem nome, tem sexo, idade, religião…

És parvo, meu querido.

E que Deus não sabe matemática?

Parvo, parvo, parvo…

Tenho medo da tua mão silenciosa, tenho medo dos teus olhos em profunda tristeza, quando ambos sabemos que dentro de ti habitam as mais lindas recordações de uma infância pincelada pelas marés em cio. Onde anda aquele menino dos calções que se deliciava a olhar o mar e os barcos e a areia branca do Mussulo?

Vive dentro de um álbum de fotografias a preto e branco… e dizem que voa sobre um rio curvilíneo embrulhado em socalcos de medo.

A paixão, meu querido, é o silêncio entre dois olhares e separados por duas rectas paralelas…

Mas duas rectas paralelas encontram-se no infinito, minha querida…

Pois… não sei o que diga.

Imagina dois olhares suspensos na manhã

Sim, estou a imaginar.

Imagina que sobre esses dois olhares, em pedacinhos de mel, descem as lágrimas do Céu

Sim, consigo imaginar.

Imagina agora, meu querido, que esses dois olhares têm um corpo, têm desejos, têm mãos que se entrelaçam nos lábios do mar

Sim, minha querida.

E esses olhares e esses corpos e essas mãos e esses desejos… voam sobre o mar pincelado de beijos, enquanto no peito desses dois olhares, sem que alguém perceba, há um triângulo rectângulo em que o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos e

Não percebo, minha querida.

E descem as lágrimas do Céu sobre mim…

Não. Não sabia, meu querido.

E que a paixão tem vida, tem nome, tem sexo, idade, religião…

És parvo, meu querido.

E que Deus não sabe matemática?

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 15/09/2022

(Ficção)

23
Ago22

Um pouco mais de azul

francisco luís fontinha

Vivíamos dentro de uma pequena caixa de sapatos, tamanho trinta e dois. Quando descíamos a rua, do lado direito, junto à farmácia, ouvíamos as gaivotas que tínhamos trazido de Luanda e quando acordava o sol, às vezes sim, outras, nem por isso, eu inventando noites de luar que partilhava com os velhos triciclos com assento em madeira e que devido à idade, todos os parafusos e porcas rangiam como rangiam os duzentos e seis ossos do meu avô Domingos; antes de o barco zarpar, percebia que a minha mão minúscula era suficiente preguiçosa para desenhar nuvens de despedida nos céus de uma cidade a desaparecer no horizonte, como desapareceram todos os papagaios em papel da minha infância.

O dinheiro era minguo e apenas dava para beijos, carinho e fatias de felicidade, que ainda hoje, passados mais de cinquenta anos, recordo como saudade.

Nunca gostei da escola. Enquanto a professora ensinava as diversas matérias e de casa, todos nós, eu e os meus colegas, levávamos os ensinamentos de respeitar os professores, funcionários e nunca esquecer, os mais velhos; hoje, parece que esses ensinamentos deixaram de existir e os putos, por tudo e por nada, fazem birras imbecis fruto da educação que têm em casa… e uma palmada no rabo nunca fez mal a ninguém.

Quando acordávamos, em pleno Inverno, os cortinados eram substituídos por finos fios de geada, pois as janelas, por cansaço ou outra qualquer razão, eram desprovidas de vidros, que na altura já era um grande avanço tecnológico, já tínhamos ar condicionado natural.

O avô Domingos passeava o machimbombo pelas ruas de Luanda, e quando regressava ao final da tarde, eu esperava-o sentado em cima do portão, porque sabia que receberia abraços e beijos; e trazia-me sempre um pedacinho de mar invisível na algibeira.

Aos Domingos, aproveitava-me da paciência do meu pai e íamos até ao porto de mar olhar os barcos; a minha paixão de criança. Olhar os barcos e inventar círculos de luz sobre o azul-mar que ainda hoje guardo no peito.

E assim fui crescendo, dentro de uma pequena caixa de sapatos número trinta e dois e nunca esquecendo o silêncio do Mussulo.

 

 

Francisco Luís Fontinha

23/08/2022

18
Ago22

Porque voam os sonhos, doutor?

francisco luís fontinha

Lamento muito, mas o senhor tem cancro.

- Não lamente, doutor, porque eu só quero voar!

Voar?

- Sim, doutor, voar em direcção ao mar…

 

Desciam as nuvens sobre a aldeia quando uma pincelada de luz poisou sobre o silêncio e na despedida, no final da tarde, ouviam-se os primeiros gemidos dos gonzos enferrujados da insónia, depois, percebemos que tínhamos acordado dentro de um cubículo desabitado e que antes de nós, pelas frestas que nos olhavam através das tristes paredes, tinha pertencido ao poeta suicidado.

- Morreu de quê, doutor?

Enforcou-se nas palavras…

E das palavras se alimentou durante mais de quarenta anos, até que numa alegre tarde de Inverno, junto à lareira, percebeu que essas mesmas palavras eram o veneno invisível que todas as manhãs acordava a seu lado,

- Mas… doutor, eu apenas quero voar… sim, voar em direcção ao mar…

E percebeu que além das palavras, e percebeu que além dos livros, e percebeu que além da doença, tudo em comparação com a possibilidade de voar, em direcção ao mar, eram apenas pequenas sombras que todas as noites dormiam sobre o cacimbo da infância.

E um dia, dos calções, acordou a luz.

- Que descanse em paz,

Como se a morte não fosse o eterno descanso de duzentos e seis ossos e trinta e dois dentes. Mas ele, teimoso, apenas queria voar em direcção ao mar, e que desciam as nuvens sobre a aldeia quando uma pincelada de luz poisava sobre o silêncio, até que uma pequena lâmina de saudade se abraçava a ele, como se a morte não fosse o eterno descanso da puta da pesadíssima enxada da vida,

- Barcos ao fundo.

Silêncios ao alto.

E entre apitos doirados, socalcos e vinhedos, o velho comboio quase a merecer a tão desejada reforma, dançava ao som do pôr-do-sol como se fosse um menino a brincar nos pequenos charcos após as chuvas endiabradas das manhãs de intenso calor. E ele, ainda sentado sobre uma pausa de cansaço, perguntava-me,

- Falta muito, doutor?

E claro que não, claro que não… estamos quase.

- Não lamente, doutor, porque eu só quero voar!

Voar?

- Sim, doutor. Voar como voam os sonhos nas mãos desejadas do sono.

E que do sono se faça a luz; segredava-me ele enquanto vestia as asas silenciadas pelas tempestades de areia numa qualquer longínqua praia em que apenas os pássaros podiam dormir antes de acordar o luar.

- Sim, doutor, voar em direcção ao mar…

 

 

 

Alijó, 18/08/2022

Francisco Luís Fontinha

16
Ago22

Quando do sono emerge a triste pétala de saudade

francisco luís fontinha

Carlota acordou triste. Enquanto se passeava nos lençóis nocturnos da insónia, e sempre que antes de se deitar tinha a oportunidade de olhar-se no espelho da saudade, quase nunca acordava de manhã ou tal como hoje, acordava embrulhada numa finíssima lâmina de saudade.

Descera ao rio durante a noite em pequenos voos rasantes, os barcos sombreados que o luar tinha desenhado sobre o imenso cais onde donzelas de charme dançavam a despedida das naus, aos poucos, começavam a zarpar em direcção à morte, tratando-se de barcos carregados pela idade, dir-se-ia que o fogo seria a melhor forma de desaparecer neste labirinto ténue de tristeza, caso Carlota tivesse aberto a janela para a solidão, todos estes barcos seriam salvos pelas rezas e mesinhas que na aldeia habitam junto às árvores.

Os cigarros chegavam e sobravam para a última viagem da tinta sobre a tela enlameada de lágrimas e, do outro lado do rio, junto à cabana, Carlota adivinhava um fim de tarde mergulhada nos braços de Rita, que sempre que podia, vinha à aldeia para estar junto daquela que conseguia rezar aos pássaros antes de estes poisarem na tela e adormecerem como adormecem as crianças no travesseiro da inocência. Rita percebia que aos poucos a tela lacrimar de Carlota se transformaria num negro enredo que apenas um pincel esquecido no atelier sabia transformar em palavras.

A janela para a solidão. Todos estes barcos seriam salvos pelas rezas e mesinhas que na aldeia habitam junto às árvores e caso um dia Rita trouxesse na pele húmida da manhã as pequenas gotículas do desejo, na aldeia todos seriam coniventes dos doirados beijos entre dois silenciados corpos, enquanto no atelier, uma pequena dança avançava para os lábios do medo, que depois da morte, argamassava os ossos na escuridão cansada das grandes tempestades de saliva, depois, entre as coxas da madrugada, a pedra envenenada desaparecia no rio.

Amas-me, Rita?

Ouvíamos as danças das coxas quando nos teus lábios se percebia que o poema aos poucos mergulhava entre os parenteses da insónia, quando sobre nós, entre lágrimas de silêncio, as vozes nocturnas entranhavam-se em nós, como se entranham na paisagem do loiro trigo as sílabas amorfas da loucura;

Desejo-te muito, Carlota…

Sempre que há luar na tua mão, sempre que tenho sobre o peito a invisível madrugada dos pinceis que apenas a tela absorve entre um círculo com olhos verdes descendo a Mutamba, o trigo percebe que em breve será poeira como o são todos os ossos das roseiras em flor.

Não sabíamos que o desejo era uma nuvem de fome em direcção às esplanadas do Baleizão, que à noite, recebia trapezistas, malabaristas e palhaços de vidro.

Porque me amas, Rita? Quando dentro de ti apenas existe um pedacinho de lua com sabor a chocolate, quando dentro de ti, eu, sou a princesa das noites voláteis sem perceber que já não sou eu, sem perceber que deixei de existir na noite dos tristes triângulos das luzes e cores, que sempre que nos beijávamos no Mussulo, se sentavam na fina areia do pôr-do-sol.

Não vens, Rita?

E sempre que Rita não descia à aldeia e se deitava junto à tristeza de Carlota, esta, acordava embrulhada em tristeza e lágrimas de incenso, que à medida que a manhã avançava em direcção ao bairro Madame Berman era absorvida pelo cheiro da terra queimada;

Assim dançávamos dentro dos pequenos charcos que circulavam as velhas sanzalas e que de vez em quando, junto à noite, ouviam-se os roncos dos velhos carros militares que pernoitavam no quarte do Grafanil.

Um dia, meu amor, todas as pétalas serão tuas e as minhas telas, apenas elas, servirão de poiso às tuas lágrimas.

Hoje acordei triste. Enquanto passeava nos lençóis nocturnos da insónia percebi que nas tuas mãos, doce Rita, brincam as palavras mais belas que só o teu corpo sabe declamar enquanto junto a mim oiço os mabecos em cio em alegres despedidas.

O Mussulo era um encanto quando sabíamos que tudo era apenas uma imagem desenhada num espelho que alguém apelidou de saudade, e eu, chamo de orgasmo.

 

 

 

Alijó, 16/08/2022

Francisco Luís Fontinha

03
Ago22

O zincado medo das sanzalas de prata

francisco luís fontinha

Finíssimas lâminas de luz atravessavam o teu corpo habitado pelas gotículas incineradas que a madrugada poisava e num ápice silencioso, à velocidade do desejo, voavam depois sobre as marés lindas de Inverno; um barco apaixonado rodopiava nos teus seios que da tela acabada de acordar, pincelada pela noite anterior, escrevia na fina areia da saudade…

Amo-te.

Amo-te, não percebendo o infame desejo que nas mãos do artista vive a insónia construída de luz e fogo. Não sabíamos que nos candeeiros a petróleo que brincavam no atelier, alguns deles, perfeitos anormais, existiam as cansadas estrelas da alvorada, quando lá longe, alguém pestanejava ao silêncio teu corpo quando ainda menino, inventava corridas á volta da lareira.

Tínhamos a fome do desejo e a dor do prazer; as palavras desciam pela tua pele como se fossem pedacinhos de chuva sobre o zincado medo das sanzalas de prata, e mesmo assim, amavas-me, e mesmo assim, tínhamos entre mãos todos os poemas da cidade.

Pincelada pela noite anterior, escrevia na fina areia da saudade os gemidos magnânimos dos pássaros em cio, quando sabíamos que um dia a saudade seria apenas algumas folhas em papel, cansadas pelas tempestades dos tristes sorrisos de Primavera, distantes dos infelizes abraços que a noite transportava para o rio.

Amanhã, a sanzala grita

Das lágrimas invisíveis dos tons de oiro que poisavam no teu cabelo, percebia-se que a cidade fervilhava como fervilham os sexos junto ao mar, assim que acordávamos, ouvíamos os belos socalcos do Doiro, entre rabelos e sombras de enxada nas mãos calejadas da madrugada.

Amanhã, a sanzala grita como gritam os teus braços quando se alicerçam aos distantes luares que uma infância aprisionou antes do nascer do sol. A vontade de correr ficou estacionada perto da ponte metálica que servia de esconderijo quando eramos atacados pelos famintos pássaros que transportavam os desejados poemas em pequenas quadriculas num qualquer papel de parede; morríamos.

Hoje, somos pedaços de nada.

Que da tela acabada de acordar, pincelada pela noite anterior, escrevia na fina areia da saudade…

Amo-te, sabendo que ontem tinham morrido todos os riscos deixados sobre a areia da infância.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 03/08/2022

26
Jul22

Fotografias e pedacinhos de saudade

francisco luís fontinha

Nasci, logo em seguida o meu pai inventou o sono e a paixão. Numa pequena caixa de sapatos, onde guardava as recordações da breve estadia no ex Congo Belga, fotografias e pedacinhos de saudade, colocou as minhas primeiras palavras; a cidade é o cansaço quando o transeunte tropeça na calçada que tem janela para o mar e onde muitos meninos brincavam com barcos em papel e nuvens coloridas e sanzalas de prata onde habitava o silêncio que transportava as pequenas palavras do menino…

É tão pequenino, senhora enfermeira!

E diziam que voava em todos os finais de tarde. Depois, de gatinhar em gatinhar, de sombra em sombra, o dito menino começou a construir sorrisos nos lábios da mãe e a desenhar traquinices no olhar do pai.

Tínhamos no quintal galinhas, pombas e mangueiras, onde, debaixo destas, por vezes, dormiam os sonhos que regressavam da baía depois de contornarem as palmeiras que hoje são apenas cortinados entre o hoje e o ontem; eramos felizes.

Nasci, logo em seguida o meu pai inventou o sono e a paixão, depois inventou a noite, as estrelas, os musseques, as palavras, o cacimbo, o capim… e por último, o beijo. Sabia que um dia, talvez ontem, talvez amanhã, nasceriam gladíolos pincelados de orvalho, depois, quando acordasse o despertador que habita na mesinha-de-cabeceira, a voz da tristeza iluminaria a secretária onde brincam, o meu pai e a minha mãe e dizem-nos que é a vida.

É a morte, digo eu. As pombas talvez ainda façam voos rasantes junto ao Grafanil, quanto às mangueiras, essas coitadas, alguma mão as assassinou apenas porque em todos os finais de tarde, junto à noite, davam guarita ao menino dos calções que passava as horas a inventar minutos de silêncio para mais tarde guardar dentro da pequena caixa de sapatos.

Fotografias e pedacinhos de saudade, colocou as minhas primeiras palavras; a cidade é o cansaço quando o transeunte tropeça na calçada que tem janela para o mar e onde muitos meninos brincavam com barcos em papel e nuvens coloridas e sanzalas de prata onde habitava o silêncio que transportava as pequenas palavras do menino porque durante a noite o desenho acordava e de janela em janela e de palavra em palavra todas as sombras… hoje fotografias.

Acordava a manhã e o meu avô Domingo passeava um velho machimbombo pelas ruas de uma Luanda prisioneira, hoje, de algumas fotografias e cintilantes recordações; hoje, apenas recordações. A Luanda, o avô Domingos, o meu pai, a minha mãe, a minha avó e apenas o triciclo com assento em madeira teima em durante a noite fazer alguns passeios no tecto da alcofa onde antigamente a minha mãe desenhava o mar.

Inventou o sono e a paixão.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 26/07/2022

23
Jul22

Os pássaros da madrugada

francisco luís fontinha

Desciam as escadas enquanto mergulhávamos nas palavras escritas que só o velho mendigo conhecia e depois acordávamos entre os pássaros da madrugada e depois olhávamos a maré em tons de cinzento sem percebermos que a noite é a morte vestida de estrelas abraçada à dor que apenas o corpo consegue desenhar na madrugada porque de luas e percebes estávamos fartos de desenhar na alvorada ora porque diziam que estávamos mortos se ainda conseguíamos escrever na areia molhada dos teus seios suspensos as canções de revolta enquanto uma enxada brincava no silêncio do deserto antes de acordarem os pássaros da madrugada?

 

És flor deste jardim construído nos socalcos do desejo. Abro a janela do medo enquanto oiço as acácias que brincam no teu corpo, depois, percebo que ninguém habita a tua mão onde deixo ficar as minhas palavras como se estas fossem a despedida; o poeta vai partir em direcção ao mar, porque neste porto apenas vagueiam barcos em papel e fotografias da tua dor.

Desciam as escadas enquanto mergulhávamos nas palavras escritas que só o velho mendigo conhecia e depois acordávamos entre os pássaros da madrugada, sem percebermos que dentro do círculo com olhos verdes, as palavras semeiam-se como se semeia o medo de acordar junto ao velho plátano de uma infinita infância entre montanhas e socalcos e seios de luz e lágrimas de luar; e aos poucos percebia da tua respiração que em breve voarias como voam os pássaros quando percebem que o silêncio é uma equação sem resolução. E que ainda hoje voas.

Diziam que estávamos mortos se ainda conseguíamos escrever na areia molhada dos teus seios suspensos as canções de revolta enquanto uma enxada brincava no silêncio do deserto antes de acordarem os pássaros da madrugada, depois, ouviam-se as canções de despedida embrulhada nas lágrimas que apenas o poema consegue descrever, quando sentado num qualquer banco de jardim…

À dor que apenas o corpo consegue desenhar na madrugada.

Nada mais.

E que ainda hoje voas.

 

 

 

Alijó, 23/07/2022

Francisco Luís Fontinha

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