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do quarto para o blog

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25
Jun22

Sono transverso

francisco luís fontinha

Não tínhamos dentro de nós

O sono transverso do silêncio,

Não tínhamos o pão,

Não tínhamos as palavras que hoje semeio…

Não tínhamos nada,

Não tínhamos medo.

 

Não tínhamos as lágrimas que hoje crescem

Sob a sombra infinita da solidão,

Não tínhamos as nuvens,

Não tínhamos este rio que nos abraça,

Que nos beija,

Não tínhamos estes velhos

 

E cansados socalcos.

Não tínhamos o desejo

Que habita nesta insignificante pedra,

Não tínhamos o vento

Que nos embala…

Não tínhamos uma espingarda

 

Que disparasse o prometido pão.

Não tínhamos a fome,

Não tínhamos a lareira que o corpo consome,

Não tínhamos nada…

Não tínhamos tempo

Que hoje nos enforca,

 

Que hoje nos levanta

Deste chão envenenado.

Não tínhamos o poema,

Não tínhamos os livros que hoje temos…

Não tínhamos a espingarda,

Não tínhamos o texto embriagado

 

Pelo cansaço da manhã.

Não tínhamos as lágrimas,

Não tínhamos o silêncio

Das eiras em construção;

Não tínhamos nada,

Nada que hoje temos.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 25/06/2022

24
Jun22

A paixão dos barcos

francisco luís fontinha

Não sabíamos que da paixão dos barcos,

Um dia, hoje,

Cresceriam nuvens de saudade e,

Pedacinhos de neblina,

 

Fina simplicidade do cansaço,

Quando na tua face, ontem, brincavam as lágrimas do silêncio.

Não sabíamos que da paixão dos barcos,

Um dia, hoje,

 

O teu cabelo voaria em direcção ao mar,

Entre rochedos e sombras,

Entre papéis ensanguentados pela solidão,

Que hoje,

 

Que hoje são palavras na minha mão.

Não sabíamos que da paixão dos barcos,

Hoje,

Crescem nuvens de saudade e,

 

Algumas fotografias sem nome.

Hoje, ontem, amanhã…

O Sábado indefinido

Que adormece em ti,

 

Em mim, perdedor das marés,

Cancioneiro da tristeza;

E assim, acredito que as tuas cinzas

São barcos. A paixão dos barcos.

 

 

Alijó, 24/06/2022

Francisco Luís Fontinha

20
Jun22

A casa poema de sonhar

francisco luís fontinha

Verde são estes olhos de dormir

Enquanto há palavras na fogueira,

Verde são os poemas de amar,

São as lágrimas de chorar;

Verde são as noites sem dormir,

São as noites junto à ribeira…

Verde são as ondas do mar

Que brincam na lareira.

 

Verde é a solidão

Sob o tórrido silêncio de escrever,

Verde é a palavra envenenada

Que tento adormecer na alvorada.

Verde sentido só possível neste coração…

Verde as nuvens do entardecer,

Que escondem socalcos enxada,

Como se o universo fosse morrer,

 

Como se o universo fosse verde aldeia.

Verde cansaço madrugar,

Que escondo no Ujo luar,

Verde que sofre, verde das almas roubadas,

Verde alegre das lágrimas semeadas.

Verde são os olhos de chorar,

Verde são os versos das janelas arrombadas

Na casa verde, na casa poema de sonhar.

 

 

Alijó, 20/06/2022

Francisco Luís Fontinha

19
Jun22

Das pequenas árvores do sono

francisco luís fontinha

Assim que acordávamos, ouvíamos o sono que regressava da tempestade deixada ao abandono durante a noite; o cabelo tinha-se-lhe esvoaçado, como as árvores quando se despem para dormir.

O sono levava-a e trazia-lhe o desconsolo de viver acorrentada a uma sombra que alguém tinha trazido da longínqua Angola, na algibeira do avental, algumas palavras despregadas do uivo dos mabecos envenenados pelos sonhos de uma madrugada recheada de pequeníssimos papeis onde habitavam frases de revolta e agonia.

Ouviam-se os pássaros nas ardósias manhãs de Verão, junto ao mar, ou mais longe do que isso, os barcos de cartolina regressavam de mais uma viagem ao infinito; as equações do sono também, por vezes, se faziam acompanhar pela solidão do capim onde se escondiam algumas gaivotas que procuravam as cinzas da tarde. Sabia que um dia, também o seu próprio cabelo, seria a madrugada travestida de sono, que muito mais tarde, se suicidaria junto à baía. Tínhamos medo da noite. Tínhamos medo do sofrimento que depois da tarde se despedia do silêncio que a cada segundo que passava, que a cada minuto de sofrimento, aparecia à janela do cansaço.

Sabíamos que os cabelos eram apenas pequenas sombras que todos os dias iam ao rio em busca da primeira lágrima da manhã. Um dia, junto ao mar, cresceu uma pequeníssima lâmina de sangue, uma ferida que ainda hoje sangra, que ainda hoje dorme numa cadeira que ainda hoje inventa sorrisos no espelho da sanzala.

Assim que acordávamos, ouvíamos o sono que regressava da tempestade deixada ao abandono durante a noite, todos os barcos tinham no olhar um enorme sofrimento que aos poucos dava à costa e contra os rochedos se transformavam em tiras de sono. O corpo começava a desfalecer. O corpo começava em putrefacção e o intenso cheiro a gladíolos era tal que quase adivinhava-se o silêncio que hoje pertence aos grandes petroleiros da cidade.

A cidade envelhecia. O corpo, sangrando como uma velha fonte da aldeia, tinha nas mãos as cinzas dos ossos desfigurados pelos comestíveis cogumelos que só os poemas conseguiam construir no profundo mar das marés em delírio; o corpo sangrava porque existia sobre a pele a fragância laminada de uma tempestade perfeita, depois, eram as cadeiras da cozinha em pequenos gritos que apenas eram sentidos pelos velhos azulejos que numa qualquer sexta-feira alguém deixou ficar debaixo da árvore junto à porta.

Do cabelo, alguns silêncios despertavam. A tinta que às vezes escorria no seu rosto era o principal motivo de se esconder no quarto e desligar o interruptor do sonho que trazia junto ao peito. Todos os brancos cabelos que ela tinha um dia tinha prometido ao criador, hoje eram apenas vestígios de lágrimas e silêncios.

Sabia-se que a morte tinha descido à velha cidade.

Os cabelos brancos tinham, finalmente, encontrado a liberdade.

E do cabelo, alguns silêncios despertavam…

 

 

Alijó, 19/06/2022

Francisco Luís Fontinha

16
Jun22

Uma Bedford amarela, um machimbombo e roupas que apenas o “chapelhudo” vestia em noites de poesia nas noites de luar,

francisco luís fontinha

Tínhamos na algibeira a silenciada espada do silêncio; porque morrem os pássaros, mãe?

Não sabíamos que dentro dos corações de veludo, alguns deles, tristes e sós, habitavam nuvens de prata e palavras camufladas pela solidão das manhãs em que eu, menino de colo, brincava na areia branca do Mussulo.

Que saudades, mãe!

Do Mussulo?

Não, pai, não…

Dos papagaios em papel invisível que a mãe construía sem conhecimentos de física, matemática ou aerodinâmica,

E a Bedford, pai?

Que tem, filho?

Morreu num dia de chuva, como hoje.

Voava em direcção ao sol, depois, num ápice, escondia-se sob a inflamada escuridão das manhãs sem sono. Até as mangueiras tombaram no chão lamacento, depois das trovoadas que quase sempre traziam pedacinhos de tristeza, que quase sempre traziam envenenadas palavras, que hoje escrevo na tua mão.

E o menino do triciclo e dos calções?

Não sei, mãe, não sei porque brincavas comigo e juntos contruíamos vestidos para o “chapelhudo”, mas depois do sono, quase sempre, vinha até nós a madrugada travestida de socalcos que só o nosso Douro lança sobre as tempestades de saudade que de vez em quando caem sobre os meus ombros, frágeis, muito frágeis.

Depois, aparecia o avô Domingos com um cordel na mão que servia para puxar o machimbombo que todos os dias passeava nas ruas de Luanda. Depois, vinha o meu pai com a Bedford amarela, tão cansada ela, tão cansada,

Que o menino do triciclo e dos calções abraçava sem perceber que hoje, que hoje não Bedford amarela.

Tínhamos na algibeira a silenciada espada do silêncio; porque morrem os pássaros, mãe,

Porque voam os pássaros, mãe?

E sabíamos que um dia, hoje, as palavras são flores que habitam o meu jardim em papel e, talvez, quem sabe, na tua lápide, deixe um poema, um beijo numa acrílica tela ou

Porquê, mãe?

Ou sejam os sábados prisões de almas, sombras, ou sejam apenas pequenos nadas das palavras, tuas, quando embarcaste nessa viagem sem que o mar recordasse o Mussulo encaixilhado numa janela com fotografia para o rio.

Uma Bedford amarela, um machimbombo e roupas que apenas o “chapelhudo” vestia em noites de poesia nas noites de luar.

E a Bedford, pai?

Que tem, filho?

Morreu num dia de chuva, como hoje.

 

 

Alijó, 16/06/2022

Francisco Luís Fontinha

04
Jun22

Planície do desejo

francisco luís fontinha

Percebo que a planície do desejo

É apenas uma equação em delírio,

É uma estrutura envenenada

Pelo vento madrugada;

Percebo que a planície do desejo

É uma contante cansada,

É uma pedra em movimento,

É a sombra na calçada.

 

Percebo que nas tuas mãos

Brincam os pássaros em papel

Que o destino deixou ficar;

Percebo.

Percebo que esta planície do desejo

É a palavra amar…

É apenas vontade de viver.

Percebo.

 

 

Percebo que na planície do desejo

Habitam os teus lábios em combustão,

Habita a palavra, habita o solstício de Verão

Quando ao longe, do mar, vem o meu esqueleto…

Percebo que na planície do desejo;

Também habitam os meus poemas de merda.

Habitam os meus desenhos de merda.

Também habita o teu olhar sereno, também habitam as tuas mãos de amar.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 04/06/2022

27
Mai22

Este silêncio

francisco luís fontinha

Percebíamos que o fogo iluminava

Os nossos corpos embriagados,

Percebíamos que o prazer,

De estarmos vivos,

Não eram sonhos sonhados…

Eram palavras de escrever,

Era a tua mão que voava

No meu silêncio sombreado,

 

Era a madrugada enforcada

Na manhã adormecida.

Percebíamos que dentro dos nossos corpos envenenados,

Saltitava o poema em desejo

Na noite assassinada.

Percebíamos que os nossos corpos envergonhados

Eram a água cansada,

Ou uma flor que acaba de morrer.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 27/05/2022

21
Abr22

As andorinhas do meu País

francisco luís fontinha

Onde poisam as andorinhas

Do meu país!

Onde brincam os poetas

Do meu País!

Onde habitam

As pedras do meu País!

 

Onde estão os sonhos do meu País!

 

E bebo deste rio

A saudade do meu País,

E alicerço no meu olhar

A revolta do meu País,

 

E sonho com as madrugadas

Do meu País…

 

Todos os dias!

A todas as horas!

 

Onde poisam as andorinhas

Do meu país,

Que no papel amarrotado

Escrevo ao meu País,

E enquanto pinto este rio,

Uma enxada,

Despede-se do meu País;

Com fome. Com sede.

 

E sonho com as madrugadas

Do meu País…

E sonho com os rios

Do meu País.

 

E esta andorinha que não voa,

Porque no meu País

Roubaram as madrugadas,

Porque no meu País,

Roubaram as palavras,

Porque no meu país já somos poucos… ou quase nada.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 21/04/2022

18
Abr22

Instantes

francisco luís fontinha

Instantes,

Imagens que passeiam na madrugada,

Sombras de fino néon

Nas mãos de uma criança.

Instantes,

Pequenas palavras que dançam

No caderno da solidão.

Instantes,

Quando o silêncio é crucificado na montanha do desejo.

Instantes,

Pequenos nadas

Nos lábios da alvorada.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 18/04/2022

12
Abr22

Manhãs de vidro

francisco luís fontinha

Trazias nos lábios

Os doces lírios da Primavera,

(às palavras o seu descanso)

Ouvíamos o uivo silêncio

Que transportavam a forca da saudade e,

Todo o Universo dormia na tua boca.

 

Escrevíamos nas tempestades nocturnas do luar.

Quando nas profundezas do rio,

Acordavam os pássaros sem nome,

Eles, dançavam nas espingardas

Que disparavam sobre as sombras

 

Cansadas na neblina.

Ouviam-se as lágrimas sentidas

Que a morte transporta nas mãos do poema…

Das flores que gritavam,

Regressavam as manhãs de vidro.

 

Assim, após a morte do poema,

Uma lápide de tristeza sombreava o teu nome,

E o triste poeta,

Sem perceber que nas madrugadas de prata brincam crianças,

Sorriem jardins e,

Vivem as gaivotas,

 

Regressava à gruta da solidão.

Hoje somos apenas pedaços de nada,

Dois círculos de luz

Envenenados pelo silêncio…

Hoje, somos apenas cansaço.

 

 

Alijó, 12/04/202

Francisco Luís Fontinha

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